Allan Dos Santos
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O Terror do Totalitarismo
January 17, 2023
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Todos esperamos que o totalitarismo – uma forma de governo na qual o estado não tem limites de autoridade e faz o que quer – seja coisa do passado.

A Alemanha nazista e a Rússia stalinista mostraram como seria o fim da humanidade e nos aterrorizaram. Mas é importante entender que o totalitarismo não surgiu apenas de um vácuo místico. Como Hannah Arendt explica em As Origens do Totalitarismo, é apenas uma possibilidade ao longo de um caminho que a maioria dos países percorre em um momento ou outro. E é por isso que é tão importante entender o que é.”

As pessoas

Uma das coisas mais perturbadoras sobre o nazismo na Alemanha é a rapidez com que o país mudou. Passaram da democracia aos campos de concentração em menos de dez anos.

A maioria de nós assume que os alemães da época eram diferentes de nós - nunca cairíamos no tipo de propaganda que Hitler vomitou. E nossa democracia é forte demais para ser desmantelada com tanta facilidade. Certo?

Errado.

Arendt escreve que “o sucesso dos movimentos totalitários… significou o fim de duas ilusões de países governados democraticamente…”. Uma ilusão era que a maioria dos cidadãos era politicamente ativa e fazia parte de um partido político. No entanto,

"… os movimentos [totalitários] mostraram que as massas politicamente neutras e indiferentes poderiam facilmente ser a maioria em um país governado democraticamente, [e] que, portanto, uma democracia poderia funcionar de acordo com regras que são ativamente reconhecidas apenas por uma minoria. A segunda ilusão democrática explodida pelos movimentos totalitários era que essas massas politicamente indiferentes não importavam, que eram verdadeiramente neutras e constituíam nada mais que o inarticulado cenário atrasado para a vida política da nação."

Em muitas democracias modernas, podemos ver evidências de indiferença e sentimentos generalizados de desamparo. Há baixa participação dos eleitores e uma suposição de que as coisas serão do jeito que são, não importa o que um indivíduo faça.

Há energia reprimida na apatia. Arendt sugere que o desejo de ser mais do que indiferente é o que os movimentos totalitários inicialmente manipulam até que o indivíduo seja totalmente subsumido.

O fator perturbador no sucesso do totalitarismo é... a verdadeira abnegação de seus adeptos: pode ser compreensível que um nazista ou bolchevique não seja abalado em sua condenação por crimes contra pessoas que não pertencem ao movimento… mas o fato surpreendente é que ele provavelmente não vacilará quando o monstro começar a devorar seus próprios filhos e nem mesmo se ele próprio se tornar uma vítima de perseguição….

Como o totalitarismo incita esse tipo de fanatismo? Como uma organização política “consegue extinguir a identidade individual de forma permanente e não apenas para o momento da ação heróica coletiva?"

Como demonstra Arendt, tanto a Alemanha nazista quanto a Rússia stalinista capitalizaram as tensões já presentes na sociedade. Houve essencialmente uma rejeição maciça do sistema político existente como ineficaz e egoísta.

A queda dos muros protetores de classe transformou as maiorias adormecidas por trás de todos os partidos em uma grande massa desorganizada e sem estrutura de indivíduos furiosos que nada tinham em comum exceto sua vaga apreensão de que as esperanças dos membros do partido estavam condenadas, que, conseqüentemente, os mais respeitados, articulados, membros representativos da comunidade eram tolos e que todos os poderes constituídos não eram tão maus quanto eram igualmente estúpidos e fraudulentos.

Como um governo totalitário aproveita essa atitude das massas? Ao isolar completamente os indivíduos por meio de “liquidação” aleatória (assassinato em massa), de modo que “a cautela mais elementar exige que se evite todos os contatos íntimos, se possível – não para impedir a descoberta de seus pensamentos secretos, mas sim para eliminar, no quase certo caso de problemas futuros, todas as pessoas que podem ter não apenas um interesse comum e barato em sua denúncia, mas uma necessidade irresistível de provocar sua ruína simplesmente porque estão em perigo [em] suas próprias vidas.

É importante entender que é simples isolar pessoas que já se sentem isoladas. Quando você se sente desconectado do sistema ao seu redor e dos líderes que ele possui, quando você acredita que nem seu voto nem sua opinião importam, não é um grande salto sentir que você mesmo não tem importância. Com esse sentimento é que o totalitarismo descobriu como manipular pelo terror aleatório qualquer forma de conexão com outros seres humanos.

O totalitarismo “exige lealdade total, irrestrita, incondicional e inalterável do membro individual.  … Tal lealdade só pode ser esperada do ser humano completamente isolado que, sem quaisquer outros laços sociais com a família, amigos, colegas ou mesmo meros conhecidos, deriva sua sensação de ter um lugar no mundo apenas por pertencer a um movimento.”

A política e a propaganda

O totalitarismo não tem um objetivo final no sentido político usual. Seu único objetivo real é perpetuar sua própria existência. Não existe uma linha partidária que, se você se apegar a ela, o salvará da perseguição. Lembre-se dos assassinatos em massa aleatórios. Stalin expurgou repetidamente seções inteiras de seu governo - apenas porque sim. O medo é uma exigência. O medo é o que mantém o movimento.

E como eles chegam lá? Como eles conseguem esse poder?

Arendt argumenta que há uma “possibilidade de que mentiras gigantescas e falsidades monstruosas possam eventualmente ser estabelecidas como fatos inquestionáveis, que o homem possa ser livre para mudar seu próprio passado à vontade e que a diferença entre verdade e falsidade deixe de ser objetiva e torne-se uma mera questão de poder e inteligência, de pressão e repetição infinita”.

Essa batalha com a verdade é algo que vemos hoje. As opiniões estão recebendo o mesmo peso que os fatos, levando a debates intermináveis ​​e à suposição de que nada pode ser conhecido de qualquer maneira.

É este afastamento do conhecimento que abre as portas ao totalitarismo. "Antes que os líderes de massa tomem o poder de ajustar a realidade às suas mentiras, sua propaganda é marcada por seu extremo desprezo pelos fatos como tais, pois, em sua opinião, o fato depende inteiramente do poder do homem que pode fabricá-lo.”

Essas invenções formam a base da propaganda, com diferentes mensagens elaboradas para diferentes públicos. Arendt afirma que “as necessidades de propaganda são sempre ditadas pelo mundo exterior e que os próprios movimentos não propagam, mas doutrinam”. Assim, a propaganda pode ser entendida como dirigida àqueles que estão fora do controle do movimento totalitário, e é utilizada para convencê-los de sua legitimidade. Então, uma vez que você está do lado de dentro, trata-se de quebrar a individualidade dos cidadãos até que não haja nada além de uma “população subjugada”.

O sucesso da propaganda dirigida internamente demonstrou que “o público estava sempre pronto para acreditar no pior, por mais absurdo que fosse, e não se opôs particularmente a ser enganado porque considerava cada declaração uma mentira de qualquer maneira”.

O poder

Como é o regime totalitário? Esses estados não são administrados por panelinhas ou gangues. Não há nenhum grupo protegido ficando rico com esse controle das massas. E ninguém está fora da mensagem. Por exemplo, “Stalin … atirou em quase todo mundo que pudesse reivindicar pertencer ao grupo dominante e… moveu os membros do Politburo para frente e para trás sempre que um grupo de domínio estava prestes a se consolidar”.

Por que nenhuma panelinha? Uma razão é que o objetivo do totalitarismo não é o bem-estar do estado. Não é prosperidade econômica ou avanço social.

A razão pela qual os engenhosos dispositivos do governo totalitário, com sua concentração absoluta e insuperável de poder nas mãos de um único homem, nunca foram tentados antes é que nenhum tirano comum jamais foi louco o suficiente para descartar todos os interesses limitados e locais - econômicos, nacionais, humano, militar — em favor de uma realidade puramente fictícia em algum futuro distante indefinido.

Como os pensadores independentes são uma ameaça, eles estão entre os primeiros a serem expurgados. As funções burocráticas são duplicadas e estratificadas, com pessoas sendo deslocadas o tempo todo.

Esta rotatividade regular e violenta de toda a gigantesca máquina administrativa, embora impeça o desenvolvimento da competência, tem muitas vantagens: assegura a relativa juventude dos funcionários e impede a estabilização de condições que, pelo menos em tempo de paz, são perigosas para o regime totalitário….

Quaisquer chances de descontentamento e questionamento do status quo são eliminadas por essa ascensão perpétua dos recém-doutrinados.

A humilhação implícita em dever um emprego à eliminação injusta de seu antecessor tem o mesmo efeito desmoralizante que a eliminação dos judeus teve sobre as profissões alemãs: torna todo empregado um cúmplice consciente dos crimes do governo.

Totalitarismo no poder é manter-se no poder.  Ao remover preventivamente grandes grupos de pessoas, o sistema neutraliza todos aqueles que possam questioná-lo.

Possivelmente, o único raio de esperança nesses sistemas é que, como eles não prestam atenção em realmente governar, provavelmente não serão sustentáveis ​​a longo prazo.

A incredulidade nos horrores está intimamente ligada à sua inutilidade econômica. Os nazistas levaram essa inutilidade ao ponto da antiutilidade aberta quando, no meio da guerra, apesar da escassez de material de construção e material rodante, eles montaram enormes e caras fábricas de extermínio e transportaram milhões de pessoas de um lado para o outro. Aos olhos de um mundo estritamente utilitário, a óbvia contradição entre esses atos e a conveniência militar deu a todo o empreendimento um ar de louca irrealidade.

Mas, enquanto isso, o que esses regimes criam é tão devastador para a humanidade que seria ingênuo presumir que a humanidade sempre se recuperará. “Eles corromperam toda a solidariedade humana. Aqui a noite caiu sobre o futuro. Quando não há testemunhas, não pode haver testemunho.”

Mesmo que o totalitarismo não produza países com uma variedade de forças e robustez para enfrentar desafios significativos, eles não devem ser facilmente descartados. A carnificina que eles criam rompe todo o tecido social. E não devemos assumir que eles existem apenas no passado. Assim, de Hannah Arendt, uma palavra final de cautela: “Soluções totalitárias podem muito bem sobreviver à queda de regimes totalitários na forma de fortes tentações que surgirão sempre que parecer impossível aliviar a miséria política, social ou econômica de maneira digna  do homem."

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  • Olavo de Carvalho, “O futuro da liberdade”, 21 de outubro de 2000
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“Como se ainda tivéssemos lei ou constituição…”
https://www.instagram.com/reel/CoM3betO45N/?igshid=YmMyMTA2M2Y=

O país está tomando de idiotas

A famosa Quem da CNN não conhece os sites MIGALHAS e CONJUR… e acha que a Janaína está citando blogues sem credibilidade.

Há ainda outros assustadores aspectos trazidos pela Janaína que são de arrancar os cabelos, mas vejam que ao deparar-se com o absurdo “acuso sem provas”, ao invés da jornalista dizer que realmente isso não é aceitável, a idiota FINGE conhecer assuntos jurídicos e DESCONHECE os sites MAIS conhecidos de qualquer advogado de porta de cadeia.

Era necessário dizer na cara da entrevistadora: “você quer debater esse tema sem tê-lo estudado?”.

https://www.instagram.com/reel/CoPZ-IhDwap/

Essa imprensa nem finge mais
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No radar da existência

Por Daniel Bertorelli

30 de Janeiro de 2023

Outro dia ouvi uma pessoa pedindo desculpas ao jornalista Allan dos Santos. O pedido inesperado e inusitado veio de um participante em uma sala de bate-papo no Spaces, uma ferramenta do "agora" mais democrático Twitter. O mea culpa veio de um ilustre desconhecido que percebeu a importância da constante vigilância e defesa implacável da liberdade dos outros, não apenas a sua própria. Ele ponderou como é possível tanta gente, e por tanto tempo, manter-se alheia ao sofrimento de um pai que não vê a família por quase três anos? De um cidadão que não pode voltar ao seu país ou viajar a qualquer outro por ter sua integridade física ameaçada por agentes do estado e seu passaporte cancelado sem ter cometido crime algum?  Um amigo em comum faz piada com a desgraça: “Quando Allan adentrou atrás das linhas inimigas no território da perseguição e censura, aquilo lá ainda era tudo mato”.

Aos desavisados, Allan dos Santos teve sua empresa de comunicação "Terça Livre" destruída da noite para o dia, e para muitos, Allan simplesmente sumiu do mapa, como aqueles aviões que desaparecem do radar no Triângulo das Bermudas e ninguém sabe dar conta do que aconteceu. Para uns poucos, houve uma certa indignação, mas essa geralmente dura pouco pois a vida continua e qualquer coisa que não atinja nossas vidas diretamente cai na categoria “cada um com seus ‘pobrema’”. Mas uma hora a ficha cai, como caiu para o amigo citado acima na conversa do Twitter,  e o que parecia o problema dos outros na verdade é de todos. Para Allan, sua família e as outras oitenta famílias atingidas pelo bloqueio das contas bancárias do Terça Livre e a interrupção de suas atividades, restou em última instância o esquecimento.

As tentativas para destruir Allan seguiram a mesma cartilha que já havia sido utilizada com o professor Olavo de Carvalho: assassinato de reputação, cerceamento de meios de sustento de forma direta conspirando para que fosse demitido de qualquer jornal ou revista, derrubada de seus canais em redes sociais e do site de sua empresa, ou de forma indireta através de intimidação, coação ou perseguição a quem quer que ousasse apoiá-lo publicamente. Olavo reinventou o jogo, fundou seu Curso Online de Filosofia e seus frutos se espalham pelo mundo com alcance e velocidade maiores que sementes de dente-de-leão dançando ao sabor do vento. O tiro saiu pela culatra. Olavo não foi apagado. Ao contrário, esculpiu de forma indelével seu nome na História. Olavo venceu.

Esse assunto me lembrou uma cena do filme “300”, que conta a história da luta entre o rei espartano Leônidas e seus trezentos soldados contra as milhares de tropas do persa Xerxes. Em determinado ponto da narrativa, Leônidas se recusa a dobrar os joelhos e a submeter-se aos caprichos do persa. Xerxes ameaça Leônidas: além de matá-lo, a sua família e a seus soldados, apagaria o nome do espartano dos livros de história, para que o mundo nem mesmo soubesse que ele jamais tivesse existido. Como dizia o líder comunista Milton Temer: “Do Olavo de Carvalho não se fala”.

Com o Allan dos Santos não foi diferente: sem meios de sustento e de comunicar-se com sua base de clientes, fãs e seguidores, ele foi enviado para uma espécie de "gullag digital", a versão moderna da "Sibéria do Esquecimento" a qual Leonel Brizola se referia ao ter sido banido dos noticiários pelo magnata das comunicações Roberto Marinho, um personagem da vida real que talvez despertasse inveja ao próprio Charles Foster Kane da ficção.

Mas o gênio saiu da garrafa com o desenvolvimento da internet e o que antes eram poucas avenidas de mão única controlando e distribuindo apenas a informação que era conveniente à manutenção do status quo, agora são milhares de estradas de mão dupla com uma capilaridade instantânea e global. O Terça Livre continua bloqueado no Brasil, é indiscutível que a gullag digital ainda existe. Mas para toda ação há uma reação. Novas vias são encontradas, como se a liberdade agora reagisse como a hidra mitológica: corta-se uma cabeça, nasce outra lugar daquela.

Em tempos mais “civilizados”, quando uma caneta de fato tem mais poder que uma espada, a história se repete. No lugar de Xerxes, temos agora um outro careca que atende pelo nome de “Xande"; no papel do destemido Leônidas entra em cena uma versão mais magrinha, convenhamos, mas igualmente barbudo, corajoso e sem papas na língua. Seu nome é Allan dos Santos. Ao invés de trezentos espartanos, Allan conta com uma meia dúzia de fiéis amigos e com algumas dezenas, talvez centenas de apoiadores, que vencendo o arame farpado e o campo minado colocado entre ele  e o público ainda conseguem fazer doações ou assinar os cursos que o Terça Livre oferece, agora à partir do exílio nos Estados Unidos. A vida é dura e sem luxos, sua filha continua doente, sua família continua longe e sobrevivendo na medida do possível, mas enquanto existirem pessoas com coragem suficiente para alinharem-se ombro a ombro com um cara comum como Allan para defender a liberdade nesse remake mundano da Batalha das Termópilas, ainda há esperança.

No filme, Xerxes falha em seus objetivos. O destino de Xande também é a derrota. Para quem ainda não percebeu, a caneta de Allan é mais poderosa que a de Xande, daí a resiliência do primeiro e o horror revelado nas atitudes arbitrárias do segundo. O careca possui o que se convencionou chamar de poder posicional, ou seja, seu poder vem de sua posição. Uma vez fora de seu posto burocrático, nem a prostituta rodando bolsinha na esquina de sua rua tem a obrigação ou o interesse em ouvi-lo, quiçá cumprir suas ordens. É bem verdade que enquanto sentado em seu trono e protegido por sua capa preta, o que não falta são putas para aplaudi-lo e obedecê-lo. Mas é um tigre de papel, basta uma lança de Leônidas pegando de raspão em sua face para provar aos demais que ele sangra e que não é um deus. Allan possui um outro tipo de poder, que podemos chamar de inter-pessoal. Ele é o que é. E milhares de pessoas conectam-se diariamente de livre e expontânea vontade para ouvir sua voz ecoando pela escuridão que a censura impõe aos brasileiros. Allan nunca parou de falar, nunca desistiu de lutar. E ele continua plantado na entrada da caverna da alegoria de Platão, chamando as pessoas à luz, agora mais uma vez com o megafone do Twitter em mãos.

O Brasil e o mundo vivem tempos estranhos, onde ficção e realidade se misturam em uma dança surrealista e às vezes diabólica. Nem o mais criativo escritor ou diretor de cinema poderiam conceber na ficção o que anda acontecendo na vida real. Oremos e vigiemos, para que daqui a algum tempo não tenhamos que pedir desculpas a mais Allans, Marias, Josés que sumiram sem deixar rastro. Ahn! Um último grito da porta da caverna, para quem ainda está perdido no escuro e procurando uma saída: sabe aqueles aviões que desapareceram no Triângulo das Bermudas lá no início desse texto? Pois é, um deles reapareceu no radar, o prefixo é TL 2023, e seu piloto é Allan dos Santos.

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Gillez, ou: A solução do enigma

Olavo de Carvalho

Diário do Comércio (editorial), 29 de janeiro de 2008

A palavra que dá título a este artigo soa esquisita, mas não é marca de perfume francês nem de chocolate espanhol. É o nome secreto de um personagem bem conhecido. Festejado ao mesmo tempo no Foro de São Paulo por sua fidelidade inflexível ao comunismo e no Fórum Econômico Mundial pela sua adesão sinceríssima ao capitalismo, o nosso presidente da República é um Zellig ao contrário. Às avessas do célebre doente mental do filme de Woody Allen, não é ele que assume a aparência dos outros: são eles que o enxergam à sua própria imagem e semelhança. Ainda nesta semana os srs. Fidel Castro e Emílio Odebrecht provaram isso novamente, o primeiro confessando que a idéia do Foro de São Paulo não foi dele, foi de Lula; o segundo jurando que este último nunca foi nem mesmo de esquerda. Cada um vê nele o que bem entende, fazendo do caipirão de Garanhuns um enigma insolúvel, um mysterium tremendum .

Talvez contribua para a solução do enigma a verificação de que, o personagem sendo popularíssimo e não dizendo coisa com coisa, cada um está livre para usá-lo como imagem publicitária do seu partido, como rótulo da sua mercadoria. A imagem confortavelmente elástica daí resultante contribui para aumentar ainda mais a popularidade do cidadão, que cada um ama pelas razões que bem entende, só enxergando no amado aquilo que lhe convém e encobrindo os sinais contrários com aquela benevolência idiota dos corações apaixonados.

Talvez não seja de todo inútil lembrar a declaração do próprio Lula, de que não tem a menor idéia do tipo de socialismo que quer implantar no Brasil e no resto da América Latina. Sendo assim, só lhe resta criar as condições para que outros socialistas possam decidir isso no futuro. Para tanto ele precisa manter o capitalismo funcionando enquanto vai transferindo aos partidos e organizações de esquerda, lenta e metodicamente, o monopólio do poder político e da propaganda ideológica. Tal é a missão que esse homem escolheu, e tal é a definição mesma de “governo de transição”, que é o termo pelo qual ele próprio, com precisão exemplar, designa a sua passagem pela presidência da República. Com freqüência os governos de transição se atrapalham, tentando conciliar o inconciliável, mas o governo Lula escapou desse destino fazendo uma divisão rígida do território — a economia para os capitalistas, tudo o mais para os socialistas – e empenhando o melhor de si nas duas direções, sabendo que elas podem permanecer separadas até que chegue o dia de decidir, por fim, qual o bendito modelo de socialismo a ser adotado. Nesse dia, Lula, se não se encontrar irrevogavelmente falecido, alegará que está com Alzheimer e passará o abacaxi aos “cumpanhêro”. Até lá, poderá continuar servindo eficazmente a dois senhores, agradando igualmente a ambos.


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A mentalidade revolucionária

Olavo de Carvalho

Diário do Comércio, 16 de agosto de 2007

Desde que se espalhou por aí que estou escrevendo um livro chamado “A Mente Revolucionária”, tenho recebido muitos pedidos de uma explicação prévia quanto ao fenômeno designado nesse título.

A mente revolucionária é um fenômeno histórico perfeitamente identificável e contínuo, cujos desenvolvimentos ao longo de cinco séculos podem ser rastreados numa infinidade de documentos. Esse é o assunto da investigação que me ocupa desde há alguns anos. “Livro” não é talvez a expressão certa, porque tenho apresentado alguns resultados desse estudo em aulas, conferências e artigos e já nem sei se algum dia terei forças para reduzir esse material enorme a um formato impresso identificável. “A mente revolucionária” é o nome do assunto e não necessariamente de um livro, ou dois, ou três. Nunca me preocupei muito com a formatação editorial daquilo que tenho a dizer. Investigo os assuntos que me interessam e, quando chego a algumas conclusões que me parecem razoáveis, transmito-as oralmente ou por escrito conforme as oportunidades se apresentam. Transformar isso em “livros” é uma chatice que, se eu pudesse, deixaria por conta de um assistente. Como não tenho nenhum assistente, vou adiando esse trabalho enquanto posso.

A mente revolucionária não é um fenômeno essencialmente político, mas espiritual e psicológico, se bem que seu campo de expressão mais visível e seu instrumento fundamental seja a ação política.

Para facilitar as coisas, uso as expressões “mente revolucionária” e “mentalidade revolucionária” para distinguir entre o fenômeno histórico concreto, com toda a variedade das suas manifestações, e a característica essencial e permanente que permite apreender a sua unidade ao longo do tempo.

“Mentalidade revolucionária” é o estado de espírito, permanente ou transitório, no qual um indivíduo ou grupo se crê habilitado a remoldar o conjunto da sociedade – senão a natureza humana em geral – por meio da ação política; e acredita que, como agente ou portador de um futuro melhor, está acima de todo julgamento pela humanidade presente ou passada, só tendo satisfações a prestar ao “tribunal da História”. Mas o tribunal da História é, por definição, a própria sociedade futura que esse indivíduo ou grupo diz representar no presente; e, como essa sociedade não pode testemunhar ou julgar senão através desse seu mesmo representante, é claro que este se torna assim não apenas o único juiz soberano de seus próprios atos, mas o juiz de toda a humanidade, passada, presente ou futura. Habilitado a acusar e condenar todas as leis, instituições, crenças, valores, costumes, ações e obras de todas as épocas sem poder ser por sua vez julgado por nenhuma delas, ele está tão acima da humanidade histórica que não é inexato chamá-lo de Super-Homem.

Autoglorificação do Super-Homem, a mentalidade revolucionária é totalitária e genocida em si, independentemente dos conteúdos ideológicos de que se preencha em diferentes circunstâncias e ocasiões.

Recusando-se a prestar satisfações senão a um futuro hipotético de sua própria invenção e firmemente disposto a destruir pela astúcia ou pela força todo obstáculo que se oponha à remoldagem do mundo à sua própria imagem e semelhança, o revolucionário é o inimigo máximo da espécie humana, perto do qual os tiranos e conquistadores da antigüidade impressionam pela modéstia das suas pretensões e por uma notável circunspecção no emprego dos meios.

O advento do revolucionário ao primeiro plano do cenário histórico – fenômeno que começa a perfilar-se por volta do século XV e se manifesta com toda a clareza no fim do século XVIII – inaugura a era do totalitarismo, das guerras mundiais e do genocídio permanente. Ao longo de dois séculos, os movimentos revolucionários, as guerras empreendidas por eles e o morticínio de populações civis necessário à consolidação do seu poder mataram muito mais gente do que a totalidade dos conflitos bélicos, epidemias terremotos e catástrofes naturais de qualquer espécie desde o início da história do mundo.

O movimento revolucionário é o flagelo maior que já se abateu sobre a espécie humana desde o seu advento sobre a Terra.

A expansão da violência genocida e a imposição de restrições cada vez mais sufocantes à liberdade humana acompanham pari passu a disseminação da mentalidade revolucionária entre faixas cada vez mais amplas da população, pela qual massas inteiras se imbuem do papel de juízes vingadores nomeados pelo tribunal do futuro e concedem a si próprios o direito à prática de crimes imensuravelmente maiores do que todos aqueles que a promessa revolucionária alega extirpar.

Mesmo se não levarmos em conta as matanças deliberadas e considerarmos apenas a performance revolucionária desde o ponto de vista econômico, nenhuma outra causa social ou natural criou jamais tanta miséria e provocou tantas mortes por desnutrição quanto os regimes revolucionários da Rússia, da China e de vários países africanos.

Qualquer que venha a ser o futuro da espécie humana e quaisquer que sejam as nossas concepções pessoais a respeito, a mentalidade revolucionária tem de ser extirpada radicalmente do repertório das possibilidades sociais e culturais admissíveis antes que, de tanto forçar o nascimento de um mundo supostamente melhor, ela venha a fazer dele um gigantesco aborto e do trajeto milenar da espécie humana sobre a Terra uma história sem sentido coroada por um final sangrento.

Embora as distintas ideologias revolucionárias sejam todas, em maior ou menor medida, ameaçadoras e daninhas, o mal delas não reside tanto no seu conteúdo específico ou nas estratégias de que se servem para realizá-lo, quanto no fato mesmo de serem revolucionárias no sentido aqui definido.

O socialismo e o nazismo são revolucionários não porque propõem respectivamente o predomínio de uma classe ou de uma raça, mas porque fazem dessas bandeiras os princípios de uma remodelagem radical não só da ordem política, mas de toda a vida humana. Os malefícios que prenunciam se tornam universalmente ameaçadores porque não se apresentam como respostas locais a situações momentâneas, mas como mandamentos universais imbuídos da autoridade de refazer o mundo segundo o molde de uma hipotética perfeição futura. A Ku-Klux-Klan é tão racista quanto o nazismo, mas não é revolucionária porque não tem nenhum projeto de alcance mundial. Por essa razão seria ridículo compará-la, em periculosidade, ao movimento nazista. Ela é um problema policial puro e simples.

Por isso mesmo é preciso enfatizar que o sentido aqui atribuído ao termo “revolução” é ao mesmo tempo mais amplo e mais preciso do que a palavra tem em geral na historiografia e nas ciências sociais presentemente existentes. Muitos processos sócio-políticos usualmente denominados “revoluções” não são “revolucionários” de fato, porque não participam da mentalidade revolucionária, não visam à remodelagem integral da sociedade, da cultura e da espécie humana, mas se destinam unicamente à modificação de situações locais e momentâneas, idealmente para melhor. Não é necessariamente revolucionária, por exemplo, a rebelião política destinada apenas a romper os laços entre um país e outro. Nem é revolucionária a simples derrubada de um regime tirânico com o objetivo de nivelar uma nação às liberdades já desfrutadas pelos povos em torno. Mesmo que esses empreendimentos empreguem recursos bélicos de larga escala e provoquem modificações espetaculares, não são revoluções, porque nada ambicionam senão à correção de males imediatos ou mesmo o retorno a uma situação anterior perdida.

O que caracteriza inconfundivelmente o movimento revolucionário é que sobrepõe a autoridade de um futuro hipotético ao julgamento de toda a espécie humana, presente ou passada. A revolução é, por sua própria natureza, totalitária e universalmente expansiva: não há aspecto da vida humana que ela não pretenda submeter ao seu poder, não há região do globo a que ela não pretenda estender os tentáculos da sua influência.

Se, nesse sentido, vários movimentos político-militares de vastas proporções devem ser excluídos do conceito de “revolução”, devem ser incluídos nele, em contrapartida, vários movimentos aparentemente pacíficos e de natureza puramente intelectual e cultural, cuja evolução no tempo os leve a constituir-se em poderes políticos com pretensões de impor universalmente novos padrões de pensamento e conduta por meios burocráticos, judiciais e policiais. A rebelião húngara de 1956 ou a derrubada do presidente brasileiro João Goulart, nesse sentido, não foram revoluções de maneira alguma. Nem o foi a independência americana, um caso especial que terei de explicar num outro artigo. Mas sem dúvida são movimentos revolucionários o darwinismo e o conjunto de fenômenos pseudo-religiosos conhecido como Nova Era. Todas essas distinções terão de ser explicadas depois em separado e estão sendo citadas aqui só a título de amostra.

* * *

Entre outras confusões que este estudo desfaz está aquela que reina nos conceitos de “esquerda”e “direita”. Essa confusão nasce do fato de que essa dupla de vocábulos é usada por sua vez para designar duas ordens de fenômenos totalmente distintos. De um lado, a esquerda é a revolução em geral, e a direita a contra-revolução. Não parecia haver dúvida quanto a isso no tempo em que os termos eram usados para designar as duas alas dos Estados Gerais. A evolução dos acontecimentos, porém, fez com que o próprio movimento revolucionário se apropriasse dos dois termos, passando a usá-los para designar suas subdivisões internas. Os girondinos, que estavam à esquerda do rei, tornaram-se a “direita” da revolução, na mesma medida em que, decapitado o rei, os adeptos do antigo regime foram excluídos da vida pública e já não tinham direito a uma denominação política própria. Esta retração do “direitismo” admissível, mediante a atribuição do rótulo de “direita” a uma das alas da própria esquerda, tornou-se depois um mecanismo rotineiro do processo revolucionário. Ao mesmo tempo, remanescentes contra-revolucionários genuínos foram freqüentemente obrigados a aliar-se à “direita”revolucionária e a confundir-se com ela para poder conservar alguns meios de ação no quadro criado pela vitória da revolução. Para complicar mais as coisas, uma vez excluída a contra-revolução do repertório das idéias politicamente admissíveis, o ressentimento contra-revolucionário continuou existindo como fenômeno psico-social, e muitas vezes foi usado pela esquerda revolucionária

como pretexto e apelo retórico para conquistar para a sua causa faixas de população arraigadamente conservadoras e tradicionalistas, revoltadas contra a “direita” revolucionária imperante no momento. O apelo do MST à nostalgia agrária ou a retórica pseudo-tradicionalista adotada aqui e ali pelo fascismo fazem esquecer a índole estritamente revolucionária desses movimentos. O próprio Mao Dzedong foi tomado, durante algum tempo, como um reformador agrário tradicionalista. Também não é preciso dizer que, nas disputas internas do movimento revolucionário, as facções em luta com freqüência se acusam mutuamente de “direitistas” (ou “reacionárias”). À retórica nazista que professava destruir ao mesmo tempo “a reação” e “o comunismo” correspondeu, no lado comunista, o duplo e sucessivo discurso que primeiro tratou os nazistas como revolucionários primitivos e anárquicos e depois como adeptos da “reação” empenhados em “salvar o capitalismo” contra a revolução proletária.

Os termos “esquerda” e “direita” só têm sentido objetivo quando usados na sua acepção originária de revolução e contra-revolução respectivamente. Todas as outras combinações e significados são arranjos ocasionais que não têm alcance descritivo mas apenas uma utilidade oportunística como símbolos da unidade de um movimento político e signos demonizadores de seus objetos de ódio.

Nos EUA, o termo “direita” é usado ao mesmo tempo para designar os conservadores em sentido estrito, contra-revolucionários até à medula, e os globalistas republicanos, “direita” da revolução mundial. Mas a confusão existente no Brasil é muito pior, onde a direita contra-revolucionária não tem nenhuma existência política e o nome que a designa é usado, pelo partido governante, para nomear qualquer oposição que lhe venha desde dentro mesmo dos partidos de esquerda, ao passo que a oposição de esquerda o emprega para rotular o próprio partido governante.

Para mim está claro que só se pode devolver a esses termos algum valor descritivo objetivo tomando como linha de demarcação o movimento revolucionário como um todo e opondo-lhe a direita contra-revolucionária, mesmo onde esta

não tenha expressão política e seja apenas um fenômeno cultural.

A essência da mentalidade contra-revolucionária ou conservadora é a aversão a qualquer projeto de transformação abrangente, a recusa obstinada de intervir na sociedade como um todo, o respeito quase religioso pelos processos sociais regionais, espontâneos e de longo prazo, a negação de toda autoridade aos porta-vozes do futuro hipotético.

Nesse sentido, o autor destas linhas é estritamente conservador. Entre outros motivos, porque acredita que só o ponto de vista conservador pode fornecer uma visão realista do processo histórico, já que se baseia na experiência do passado e não em conjeturações de futuro. Toda historiografia revolucionária é fraudulenta na base, porque interpreta e distorce o passado segundo o molde de um futuro hipotético e aliás indefinível. Não é uma coincidência que os maiores historiadores de todas as épocas tenham sido sempre conservadores.

Se, considerada em si mesma e nos valores que defende, a mentalidade contra-revolucionária deve ser chamada propriamente “conservadora”, é evidente que, do ponto de vista das suas relações com o inimigo, ela é estritamente “reacionária”. Ser reacionário é reagir da maneira mais intransigente e hostil à ambição diabólica de mandar no mundo.


Em acréscimo ao meu artigo de 16 de agosto, eis aqui mais alguns traços que definem a mentalidade revolucionária:

1. O revolucionário não entende a injustiça e o mal como fatores inerentes à condição humana, que podem ser atenuados mas não eliminados, e sim como anomalias temporárias criadas por uma parcela da humanidade, a qual parcela — os burgueses, os judeus, os cristãos, etc. — pode ser localizada e punida, extirpando-se destarte a raiz do mal.

2. A parcela culpada espalha o mal e o pecado por meio do exercício de um poder – econômico, político, militar e cultural. Logo, deve ser eliminada por meio de um poder superior, o poder revolucionário, criado deliberadamente para esse fim.

3. O poder maligno domina a sociedade como um todo, moldando-a à imagem e semelhança de seus interesses, fins e propósitos. A erradicação do mal deve tomar portanto a forma de uma reestruturação radical da ordem social inteira. Nada pode permanecer intocado. O poder revolucionário, como o Deus da Bíblia, “faz novas todas as coisas”. Não há limites para a abrangência e profundidade da ação revolucionária. Ela pode atingir mesmo as vítimas da situação anterior, acusando-as de ter-se habituado ao mal ao ponto de se tornar suas cúmplices e por isso necessitar de castigo purificador tanto ou quase tanto quanto os antigos donos do poder.

4. Embora causado por uma parcela determinada da espécie humana, o mal se espalha tão completamente por toda parte que se torna difícil conceber a vida sem ele. A nova sociedade de ordem, justiça e paz não pode portanto ser imaginada senão em linhas muito gerais, tão diferente ela será de tudo o que existiu até agora. O revolucionário não tem portanto a obrigação — nem mesmo a possibilidade — de expor de maneira clara e detalhada o plano da nova sociedade, muito menos de provar sua viabilidade ou demonstrar, em termos da relação custo-benefício, as vantagens da transformação. Estas são dadas como premissas fundantes, de modo que a exigência de provas é impugnada automaticamente como subterfúgio para evitar a mudança e condenada ipso facto como elemento a ser eliminado. A revolução é fundamento de si própria e não pode ser questionada de fora.

5. Embora conhecida apenas como uma imagem muito geral e vaga, a sociedade futura coloca-se por isso acima de todos os julgamentos humanos e se torna ela própria a premissa fundante de todos os valores, de todos os juízos, de todos os raciocínios. Uma conseqüência imediata disso é que o futuro, não tendo como ser concebido racionalmente, só pode ser conhecido por meio de sua imagem na ação revolucionária presente, a qual ação por isto mesmo se subtrai por sua vez a qualquer julgamento humano, exceto o dos lideres revolucionários que a encarnam e personificam. Mas mesmo estes podem representá-la de maneira imperfeita, por serem filhos da velha sociedade e carregarem em si, ao menos parcialmente, os germes do antigo mal. A autoridade intelectual e profética dos líderes revolucionários é portanto provisória e só dura enquanto eles têm o poder material de assegurá-la. A condição de guia dos povos em direção ao futuro beatífico é portanto incerta e revogável, conforme as irregularidades do percurso revolucionário. Os erros e crimes do líder caído, não podendo ser imputados à sociedade futura, nem ao processo revolucionário enquanto tal, nem ao movimento como um todo, só podem ser explicados portanto como um efeito residual do passado condenado: o revolucionário, por definição, só peca por não ser revolucionário o bastante.

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