Allan Dos Santos
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Como Hitler usou o incêndio do congresso alemão politicamente

A Verdadeira História do Incêndio do Reichstag e da Ascensão Nazista ao Poder

Você sabe o que aconteceu na Alemanha em 27 de fevereiro de 1933, quando uma parte considerável do prédio parlamentar em Berlim, o Reichstag, pegou fogo devido a um incêndio criminoso?

Foi o boi de piranha político que Adolf Hitler usou para usar o medo das pessoas e dos políticos para consolidar o seu poder tirânico, preparando o terreno para a ascensão da Alemanha nazista. Desde então, tornou-se uma poderosa metáfora política. Sempre que cidadãos e políticos se sentem ameaçados o “Incêndio do Reichstag” é referenciado como um sinal de advertência.

Esse fato histórico tornou-se uma espécie de taquigrafia política – mas a verdadeira história do evento é muito mais complicada do que as manchetes sugerem.

A primeira experiência da Alemanha com a democracia liberal nasceu da Constituição de Weimar de 1919, estabelecida após o fim da Primeira Guerra Mundial. Ela exigia um presidente eleito por voto direto, que nomearia um chanceler para apresentar leis aos membros do Reichstag (que também eram eleitos por voto popular). O presidente manteve o poder de demitir seu gabinete e o chanceler, dissolver um Reichstag ineficaz e, em casos de emergência nacional, invocar algo conhecido como Artigo 48, que dava ao presidente poderes ditatoriais e o direito de intervir diretamente no governo da Alemanha.

Na noite de 27 de fevereiro, por volta das 9h, os pedestres que estavam perto do Reichstag ouviram o som de vidro quebrando. Logo depois, as chamas irromperam do prédio. Os bombeiros levaram horas para conter o incêndio que destruiu a câmara de debates e a cúpula dourada do Reichstag, causando danos de mais de US$ 1 milhão de dólares. A polícia prendeu um trabalhador da construção civil no local, um holandês desempregado chamado Marinus van der Lubbe. O jovem foi encontrado do lado de fora do prédio com tochas em sua posse, ofegante e suando.

“Este é um sinal dado por Deus”, disse Hitler a von Papen quando chegou ao local. “Se este incêndio, como acredito, é obra dos comunistas, então devemos esmagar essa peste assassina com mão de ferro.”

Poucas horas depois, em 28 de fevereiro, Hindenburg invocou o Artigo 48 e o gabinete redigiu o “Decreto do Presidente do Reich para a Proteção do Povo e do Estado”. A lei aboliu a liberdade de expressão, reunião, privacidade e imprensa; escutas telefônicas legalizadas e interceptação de correspondência; e suspendeu a autonomia dos estados federados, como a Baviera. Naquela noite, cerca de 4.000 pessoas foram detidas, encarceradas e torturadas pela polícia. Embora o partido comunista tivesse vencido 17% das eleições do Reichstag em novembro de 1932 e o povo alemão tivesse eleito 81 deputados comunistas nas eleições de 5 de março, muitos foram detidos indefinidamente após o incêndio. Seus assentos vazios deixaram os Nacionais Socialistas livres para fazer o que quisessem.

“Por trás da controvérsia estava a questão de maior destaque da tomada do poder pelos nacionais-socialistas: a ditadura foi resultado de um crime político ou simplesmente um evento oportuno?”, escreveu o historiador Anson Rabinbach.

É uma questão que estudiosos e historiadores vêm debatendo desde o início do incêndio. Seus argumentos preenchem centenas de páginas e numerosos livros. Alguns denunciam as evidências do nazistas como fabricadas, enquanto outros se aprofundam em outros aspectos de menos importância.

Para o historiador Peter Black, consultor do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, a teoria de um homem só como Van der Lubbe agindo sozinho parecia correta até 2013, quando uma nova pesquisa surgiu com o livro de Benjamin Hett: “Burning the Reichstag”. Hett escreveu que, dada a extensão do incêndio e a quantidade de tempo que seria necessária dentro do Reichstag para incendiá-lo, não havia como Van der Lubbe agir sozinho. Citando depoimentos de testemunhas que vieram a público após a queda da União Soviética, Hett argumentou que os comunistas não estavam envolvidos; em vez disso, disse Hett, o grupo de nazistas que investigou o incêndio e mais tarde discutiu suas causas com outros historiadores encobriu o envolvimento nazista para evitar o processo de “crimes de guerra”.

Black não concorda totalmente com a avaliação de Hett, mas diz que agora está convencido de que a teoria de um homem só é falsa. "Eu diria que Van der Lubbe não poderia ter começado aquele incêndio sozinho, com base nas evidências que agora estão disponíveis”, diz ele. "Parece provável que os nazistas estivessem envolvidos. Mas você não tem ninguém que possa dizer: sim, eu vi os nazistas.”

Tendo ou não a ajuda dos nazistas, Van der Lubbe confessou o incêndio criminoso, foi considerado culpado e condenado à morte. Os outros quatro réus foram curiosamente absolvidos por “falta de provas”, mas o incêndio continuou a ser brandido como uma conspiração comunista.

Em 23 de março, o Reichstag aprovou a Lei de Habilitação, a peça legislativa parceira do Decreto de 28 de fevereiro para a Proteção do Povo e do Estado. A Lei de Habilitação atribuiu todo o poder legislativo a Hitler e seus ministros, garantindo assim sua capacidade de controlar o aparato político. Quando o presidente Hindenburg morreu em agosto de 1934, Hitler escreveu uma nova lei que unia os cargos de presidente e chanceler. Foi sancionado por um plebiscito nacional. E o resto é conhecido de todos.

Os nazistas realmente ajudaram a atear fogo? Van der Lubbe agiu sozinho? É quase impossível saber, já que “a maioria das pessoas que saberiam ou não sobreviveram à Segunda Guerra Mundial ou não quiseram falar sobre isso depois”, diz Black. O governo alemão concedeu perdão a Van der Lubbe em 2008, 75 anos depois de sua decapitação. E embora o incêndio do Reichstag tenha gerado décadas de mistério, uma coisa é certa: desempenhou um papel crítico na ascensão dos nazistas ao poder. O incêndio provou a influência do perigoso novo ditador da Alemanha – cuja visão de refazer a nação estava apenas começando.

É como disse certa vez o filósofo e escritor Olavo de Carvalho: “Qualquer ato de violência física, em política, é apenas propaganda, preparando jogadas de poder mais decisivas. Para saber quem o planejou e comandou, basta averiguar quem tirou proveito político dele nos dias que se seguiram. Esta regra é praticamente infalível.”

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https://www.instagram.com/reel/CoM3betO45N/?igshid=YmMyMTA2M2Y=

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A famosa Quem da CNN não conhece os sites MIGALHAS e CONJUR… e acha que a Janaína está citando blogues sem credibilidade.

Há ainda outros assustadores aspectos trazidos pela Janaína que são de arrancar os cabelos, mas vejam que ao deparar-se com o absurdo “acuso sem provas”, ao invés da jornalista dizer que realmente isso não é aceitável, a idiota FINGE conhecer assuntos jurídicos e DESCONHECE os sites MAIS conhecidos de qualquer advogado de porta de cadeia.

Era necessário dizer na cara da entrevistadora: “você quer debater esse tema sem tê-lo estudado?”.

https://www.instagram.com/reel/CoPZ-IhDwap/

Essa imprensa nem finge mais
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No radar da existência

Por Daniel Bertorelli

30 de Janeiro de 2023

Outro dia ouvi uma pessoa pedindo desculpas ao jornalista Allan dos Santos. O pedido inesperado e inusitado veio de um participante em uma sala de bate-papo no Spaces, uma ferramenta do "agora" mais democrático Twitter. O mea culpa veio de um ilustre desconhecido que percebeu a importância da constante vigilância e defesa implacável da liberdade dos outros, não apenas a sua própria. Ele ponderou como é possível tanta gente, e por tanto tempo, manter-se alheia ao sofrimento de um pai que não vê a família por quase três anos? De um cidadão que não pode voltar ao seu país ou viajar a qualquer outro por ter sua integridade física ameaçada por agentes do estado e seu passaporte cancelado sem ter cometido crime algum?  Um amigo em comum faz piada com a desgraça: “Quando Allan adentrou atrás das linhas inimigas no território da perseguição e censura, aquilo lá ainda era tudo mato”.

Aos desavisados, Allan dos Santos teve sua empresa de comunicação "Terça Livre" destruída da noite para o dia, e para muitos, Allan simplesmente sumiu do mapa, como aqueles aviões que desaparecem do radar no Triângulo das Bermudas e ninguém sabe dar conta do que aconteceu. Para uns poucos, houve uma certa indignação, mas essa geralmente dura pouco pois a vida continua e qualquer coisa que não atinja nossas vidas diretamente cai na categoria “cada um com seus ‘pobrema’”. Mas uma hora a ficha cai, como caiu para o amigo citado acima na conversa do Twitter,  e o que parecia o problema dos outros na verdade é de todos. Para Allan, sua família e as outras oitenta famílias atingidas pelo bloqueio das contas bancárias do Terça Livre e a interrupção de suas atividades, restou em última instância o esquecimento.

As tentativas para destruir Allan seguiram a mesma cartilha que já havia sido utilizada com o professor Olavo de Carvalho: assassinato de reputação, cerceamento de meios de sustento de forma direta conspirando para que fosse demitido de qualquer jornal ou revista, derrubada de seus canais em redes sociais e do site de sua empresa, ou de forma indireta através de intimidação, coação ou perseguição a quem quer que ousasse apoiá-lo publicamente. Olavo reinventou o jogo, fundou seu Curso Online de Filosofia e seus frutos se espalham pelo mundo com alcance e velocidade maiores que sementes de dente-de-leão dançando ao sabor do vento. O tiro saiu pela culatra. Olavo não foi apagado. Ao contrário, esculpiu de forma indelével seu nome na História. Olavo venceu.

Esse assunto me lembrou uma cena do filme “300”, que conta a história da luta entre o rei espartano Leônidas e seus trezentos soldados contra as milhares de tropas do persa Xerxes. Em determinado ponto da narrativa, Leônidas se recusa a dobrar os joelhos e a submeter-se aos caprichos do persa. Xerxes ameaça Leônidas: além de matá-lo, a sua família e a seus soldados, apagaria o nome do espartano dos livros de história, para que o mundo nem mesmo soubesse que ele jamais tivesse existido. Como dizia o líder comunista Milton Temer: “Do Olavo de Carvalho não se fala”.

Com o Allan dos Santos não foi diferente: sem meios de sustento e de comunicar-se com sua base de clientes, fãs e seguidores, ele foi enviado para uma espécie de "gullag digital", a versão moderna da "Sibéria do Esquecimento" a qual Leonel Brizola se referia ao ter sido banido dos noticiários pelo magnata das comunicações Roberto Marinho, um personagem da vida real que talvez despertasse inveja ao próprio Charles Foster Kane da ficção.

Mas o gênio saiu da garrafa com o desenvolvimento da internet e o que antes eram poucas avenidas de mão única controlando e distribuindo apenas a informação que era conveniente à manutenção do status quo, agora são milhares de estradas de mão dupla com uma capilaridade instantânea e global. O Terça Livre continua bloqueado no Brasil, é indiscutível que a gullag digital ainda existe. Mas para toda ação há uma reação. Novas vias são encontradas, como se a liberdade agora reagisse como a hidra mitológica: corta-se uma cabeça, nasce outra lugar daquela.

Em tempos mais “civilizados”, quando uma caneta de fato tem mais poder que uma espada, a história se repete. No lugar de Xerxes, temos agora um outro careca que atende pelo nome de “Xande"; no papel do destemido Leônidas entra em cena uma versão mais magrinha, convenhamos, mas igualmente barbudo, corajoso e sem papas na língua. Seu nome é Allan dos Santos. Ao invés de trezentos espartanos, Allan conta com uma meia dúzia de fiéis amigos e com algumas dezenas, talvez centenas de apoiadores, que vencendo o arame farpado e o campo minado colocado entre ele  e o público ainda conseguem fazer doações ou assinar os cursos que o Terça Livre oferece, agora à partir do exílio nos Estados Unidos. A vida é dura e sem luxos, sua filha continua doente, sua família continua longe e sobrevivendo na medida do possível, mas enquanto existirem pessoas com coragem suficiente para alinharem-se ombro a ombro com um cara comum como Allan para defender a liberdade nesse remake mundano da Batalha das Termópilas, ainda há esperança.

No filme, Xerxes falha em seus objetivos. O destino de Xande também é a derrota. Para quem ainda não percebeu, a caneta de Allan é mais poderosa que a de Xande, daí a resiliência do primeiro e o horror revelado nas atitudes arbitrárias do segundo. O careca possui o que se convencionou chamar de poder posicional, ou seja, seu poder vem de sua posição. Uma vez fora de seu posto burocrático, nem a prostituta rodando bolsinha na esquina de sua rua tem a obrigação ou o interesse em ouvi-lo, quiçá cumprir suas ordens. É bem verdade que enquanto sentado em seu trono e protegido por sua capa preta, o que não falta são putas para aplaudi-lo e obedecê-lo. Mas é um tigre de papel, basta uma lança de Leônidas pegando de raspão em sua face para provar aos demais que ele sangra e que não é um deus. Allan possui um outro tipo de poder, que podemos chamar de inter-pessoal. Ele é o que é. E milhares de pessoas conectam-se diariamente de livre e expontânea vontade para ouvir sua voz ecoando pela escuridão que a censura impõe aos brasileiros. Allan nunca parou de falar, nunca desistiu de lutar. E ele continua plantado na entrada da caverna da alegoria de Platão, chamando as pessoas à luz, agora mais uma vez com o megafone do Twitter em mãos.

O Brasil e o mundo vivem tempos estranhos, onde ficção e realidade se misturam em uma dança surrealista e às vezes diabólica. Nem o mais criativo escritor ou diretor de cinema poderiam conceber na ficção o que anda acontecendo na vida real. Oremos e vigiemos, para que daqui a algum tempo não tenhamos que pedir desculpas a mais Allans, Marias, Josés que sumiram sem deixar rastro. Ahn! Um último grito da porta da caverna, para quem ainda está perdido no escuro e procurando uma saída: sabe aqueles aviões que desapareceram no Triângulo das Bermudas lá no início desse texto? Pois é, um deles reapareceu no radar, o prefixo é TL 2023, e seu piloto é Allan dos Santos.

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Gillez, ou: A solução do enigma

Olavo de Carvalho

Diário do Comércio (editorial), 29 de janeiro de 2008

A palavra que dá título a este artigo soa esquisita, mas não é marca de perfume francês nem de chocolate espanhol. É o nome secreto de um personagem bem conhecido. Festejado ao mesmo tempo no Foro de São Paulo por sua fidelidade inflexível ao comunismo e no Fórum Econômico Mundial pela sua adesão sinceríssima ao capitalismo, o nosso presidente da República é um Zellig ao contrário. Às avessas do célebre doente mental do filme de Woody Allen, não é ele que assume a aparência dos outros: são eles que o enxergam à sua própria imagem e semelhança. Ainda nesta semana os srs. Fidel Castro e Emílio Odebrecht provaram isso novamente, o primeiro confessando que a idéia do Foro de São Paulo não foi dele, foi de Lula; o segundo jurando que este último nunca foi nem mesmo de esquerda. Cada um vê nele o que bem entende, fazendo do caipirão de Garanhuns um enigma insolúvel, um mysterium tremendum .

Talvez contribua para a solução do enigma a verificação de que, o personagem sendo popularíssimo e não dizendo coisa com coisa, cada um está livre para usá-lo como imagem publicitária do seu partido, como rótulo da sua mercadoria. A imagem confortavelmente elástica daí resultante contribui para aumentar ainda mais a popularidade do cidadão, que cada um ama pelas razões que bem entende, só enxergando no amado aquilo que lhe convém e encobrindo os sinais contrários com aquela benevolência idiota dos corações apaixonados.

Talvez não seja de todo inútil lembrar a declaração do próprio Lula, de que não tem a menor idéia do tipo de socialismo que quer implantar no Brasil e no resto da América Latina. Sendo assim, só lhe resta criar as condições para que outros socialistas possam decidir isso no futuro. Para tanto ele precisa manter o capitalismo funcionando enquanto vai transferindo aos partidos e organizações de esquerda, lenta e metodicamente, o monopólio do poder político e da propaganda ideológica. Tal é a missão que esse homem escolheu, e tal é a definição mesma de “governo de transição”, que é o termo pelo qual ele próprio, com precisão exemplar, designa a sua passagem pela presidência da República. Com freqüência os governos de transição se atrapalham, tentando conciliar o inconciliável, mas o governo Lula escapou desse destino fazendo uma divisão rígida do território — a economia para os capitalistas, tudo o mais para os socialistas – e empenhando o melhor de si nas duas direções, sabendo que elas podem permanecer separadas até que chegue o dia de decidir, por fim, qual o bendito modelo de socialismo a ser adotado. Nesse dia, Lula, se não se encontrar irrevogavelmente falecido, alegará que está com Alzheimer e passará o abacaxi aos “cumpanhêro”. Até lá, poderá continuar servindo eficazmente a dois senhores, agradando igualmente a ambos.


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O Terror do Totalitarismo

Todos esperamos que o totalitarismo – uma forma de governo na qual o estado não tem limites de autoridade e faz o que quer – seja coisa do passado.

A Alemanha nazista e a Rússia stalinista mostraram como seria o fim da humanidade e nos aterrorizaram. Mas é importante entender que o totalitarismo não surgiu apenas de um vácuo místico. Como Hannah Arendt explica em As Origens do Totalitarismo, é apenas uma possibilidade ao longo de um caminho que a maioria dos países percorre em um momento ou outro. E é por isso que é tão importante entender o que é.”

As pessoas

Uma das coisas mais perturbadoras sobre o nazismo na Alemanha é a rapidez com que o país mudou. Passaram da democracia aos campos de concentração em menos de dez anos.

A maioria de nós assume que os alemães da época eram diferentes de nós - nunca cairíamos no tipo de propaganda que Hitler vomitou. E nossa democracia é forte demais para ser desmantelada com tanta facilidade. Certo?

Errado.

Arendt escreve que “o sucesso dos movimentos totalitários… significou o fim de duas ilusões de países governados democraticamente…”. Uma ilusão era que a maioria dos cidadãos era politicamente ativa e fazia parte de um partido político. No entanto,

"… os movimentos [totalitários] mostraram que as massas politicamente neutras e indiferentes poderiam facilmente ser a maioria em um país governado democraticamente, [e] que, portanto, uma democracia poderia funcionar de acordo com regras que são ativamente reconhecidas apenas por uma minoria. A segunda ilusão democrática explodida pelos movimentos totalitários era que essas massas politicamente indiferentes não importavam, que eram verdadeiramente neutras e constituíam nada mais que o inarticulado cenário atrasado para a vida política da nação."

Em muitas democracias modernas, podemos ver evidências de indiferença e sentimentos generalizados de desamparo. Há baixa participação dos eleitores e uma suposição de que as coisas serão do jeito que são, não importa o que um indivíduo faça.

Há energia reprimida na apatia. Arendt sugere que o desejo de ser mais do que indiferente é o que os movimentos totalitários inicialmente manipulam até que o indivíduo seja totalmente subsumido.

O fator perturbador no sucesso do totalitarismo é... a verdadeira abnegação de seus adeptos: pode ser compreensível que um nazista ou bolchevique não seja abalado em sua condenação por crimes contra pessoas que não pertencem ao movimento… mas o fato surpreendente é que ele provavelmente não vacilará quando o monstro começar a devorar seus próprios filhos e nem mesmo se ele próprio se tornar uma vítima de perseguição….

Como o totalitarismo incita esse tipo de fanatismo? Como uma organização política “consegue extinguir a identidade individual de forma permanente e não apenas para o momento da ação heróica coletiva?"

Como demonstra Arendt, tanto a Alemanha nazista quanto a Rússia stalinista capitalizaram as tensões já presentes na sociedade. Houve essencialmente uma rejeição maciça do sistema político existente como ineficaz e egoísta.

A queda dos muros protetores de classe transformou as maiorias adormecidas por trás de todos os partidos em uma grande massa desorganizada e sem estrutura de indivíduos furiosos que nada tinham em comum exceto sua vaga apreensão de que as esperanças dos membros do partido estavam condenadas, que, conseqüentemente, os mais respeitados, articulados, membros representativos da comunidade eram tolos e que todos os poderes constituídos não eram tão maus quanto eram igualmente estúpidos e fraudulentos.

Como um governo totalitário aproveita essa atitude das massas? Ao isolar completamente os indivíduos por meio de “liquidação” aleatória (assassinato em massa), de modo que “a cautela mais elementar exige que se evite todos os contatos íntimos, se possível – não para impedir a descoberta de seus pensamentos secretos, mas sim para eliminar, no quase certo caso de problemas futuros, todas as pessoas que podem ter não apenas um interesse comum e barato em sua denúncia, mas uma necessidade irresistível de provocar sua ruína simplesmente porque estão em perigo [em] suas próprias vidas.

É importante entender que é simples isolar pessoas que já se sentem isoladas. Quando você se sente desconectado do sistema ao seu redor e dos líderes que ele possui, quando você acredita que nem seu voto nem sua opinião importam, não é um grande salto sentir que você mesmo não tem importância. Com esse sentimento é que o totalitarismo descobriu como manipular pelo terror aleatório qualquer forma de conexão com outros seres humanos.

O totalitarismo “exige lealdade total, irrestrita, incondicional e inalterável do membro individual.  … Tal lealdade só pode ser esperada do ser humano completamente isolado que, sem quaisquer outros laços sociais com a família, amigos, colegas ou mesmo meros conhecidos, deriva sua sensação de ter um lugar no mundo apenas por pertencer a um movimento.”

A política e a propaganda

O totalitarismo não tem um objetivo final no sentido político usual. Seu único objetivo real é perpetuar sua própria existência. Não existe uma linha partidária que, se você se apegar a ela, o salvará da perseguição. Lembre-se dos assassinatos em massa aleatórios. Stalin expurgou repetidamente seções inteiras de seu governo - apenas porque sim. O medo é uma exigência. O medo é o que mantém o movimento.

E como eles chegam lá? Como eles conseguem esse poder?

Arendt argumenta que há uma “possibilidade de que mentiras gigantescas e falsidades monstruosas possam eventualmente ser estabelecidas como fatos inquestionáveis, que o homem possa ser livre para mudar seu próprio passado à vontade e que a diferença entre verdade e falsidade deixe de ser objetiva e torne-se uma mera questão de poder e inteligência, de pressão e repetição infinita”.

Essa batalha com a verdade é algo que vemos hoje. As opiniões estão recebendo o mesmo peso que os fatos, levando a debates intermináveis ​​e à suposição de que nada pode ser conhecido de qualquer maneira.

É este afastamento do conhecimento que abre as portas ao totalitarismo. "Antes que os líderes de massa tomem o poder de ajustar a realidade às suas mentiras, sua propaganda é marcada por seu extremo desprezo pelos fatos como tais, pois, em sua opinião, o fato depende inteiramente do poder do homem que pode fabricá-lo.”

Essas invenções formam a base da propaganda, com diferentes mensagens elaboradas para diferentes públicos. Arendt afirma que “as necessidades de propaganda são sempre ditadas pelo mundo exterior e que os próprios movimentos não propagam, mas doutrinam”. Assim, a propaganda pode ser entendida como dirigida àqueles que estão fora do controle do movimento totalitário, e é utilizada para convencê-los de sua legitimidade. Então, uma vez que você está do lado de dentro, trata-se de quebrar a individualidade dos cidadãos até que não haja nada além de uma “população subjugada”.

O sucesso da propaganda dirigida internamente demonstrou que “o público estava sempre pronto para acreditar no pior, por mais absurdo que fosse, e não se opôs particularmente a ser enganado porque considerava cada declaração uma mentira de qualquer maneira”.

O poder

Como é o regime totalitário? Esses estados não são administrados por panelinhas ou gangues. Não há nenhum grupo protegido ficando rico com esse controle das massas. E ninguém está fora da mensagem. Por exemplo, “Stalin … atirou em quase todo mundo que pudesse reivindicar pertencer ao grupo dominante e… moveu os membros do Politburo para frente e para trás sempre que um grupo de domínio estava prestes a se consolidar”.

Por que nenhuma panelinha? Uma razão é que o objetivo do totalitarismo não é o bem-estar do estado. Não é prosperidade econômica ou avanço social.

A razão pela qual os engenhosos dispositivos do governo totalitário, com sua concentração absoluta e insuperável de poder nas mãos de um único homem, nunca foram tentados antes é que nenhum tirano comum jamais foi louco o suficiente para descartar todos os interesses limitados e locais - econômicos, nacionais, humano, militar — em favor de uma realidade puramente fictícia em algum futuro distante indefinido.

Como os pensadores independentes são uma ameaça, eles estão entre os primeiros a serem expurgados. As funções burocráticas são duplicadas e estratificadas, com pessoas sendo deslocadas o tempo todo.

Esta rotatividade regular e violenta de toda a gigantesca máquina administrativa, embora impeça o desenvolvimento da competência, tem muitas vantagens: assegura a relativa juventude dos funcionários e impede a estabilização de condições que, pelo menos em tempo de paz, são perigosas para o regime totalitário….

Quaisquer chances de descontentamento e questionamento do status quo são eliminadas por essa ascensão perpétua dos recém-doutrinados.

A humilhação implícita em dever um emprego à eliminação injusta de seu antecessor tem o mesmo efeito desmoralizante que a eliminação dos judeus teve sobre as profissões alemãs: torna todo empregado um cúmplice consciente dos crimes do governo.

Totalitarismo no poder é manter-se no poder.  Ao remover preventivamente grandes grupos de pessoas, o sistema neutraliza todos aqueles que possam questioná-lo.

Possivelmente, o único raio de esperança nesses sistemas é que, como eles não prestam atenção em realmente governar, provavelmente não serão sustentáveis ​​a longo prazo.

A incredulidade nos horrores está intimamente ligada à sua inutilidade econômica. Os nazistas levaram essa inutilidade ao ponto da antiutilidade aberta quando, no meio da guerra, apesar da escassez de material de construção e material rodante, eles montaram enormes e caras fábricas de extermínio e transportaram milhões de pessoas de um lado para o outro. Aos olhos de um mundo estritamente utilitário, a óbvia contradição entre esses atos e a conveniência militar deu a todo o empreendimento um ar de louca irrealidade.

Mas, enquanto isso, o que esses regimes criam é tão devastador para a humanidade que seria ingênuo presumir que a humanidade sempre se recuperará. “Eles corromperam toda a solidariedade humana. Aqui a noite caiu sobre o futuro. Quando não há testemunhas, não pode haver testemunho.”

Mesmo que o totalitarismo não produza países com uma variedade de forças e robustez para enfrentar desafios significativos, eles não devem ser facilmente descartados. A carnificina que eles criam rompe todo o tecido social. E não devemos assumir que eles existem apenas no passado. Assim, de Hannah Arendt, uma palavra final de cautela: “Soluções totalitárias podem muito bem sobreviver à queda de regimes totalitários na forma de fortes tentações que surgirão sempre que parecer impossível aliviar a miséria política, social ou econômica de maneira digna  do homem."

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